27 de março de 2017

DIETA CETOGÊNICA PARA A OBESIDADE: AMIGO OU INIMIGO?

Olá Pessoal!


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Muito se fala atualmente em dietas com baixo teor de carboidratos. Durante os meus estudos sobre o assunto separei uma revisão bibliográfica sobre a dieta cetogênica, usada há muitos anos para alguns problemas de saúde e que hoje está sendo discutida a sua utilização na obesidade. O artigo estudado é esse: 

KETOGENIC DIET FOR OBESITY: FRIENDJ OU FOE? Antonio Paoli .Int. J Environ. Res Public Health, 2014.

A obesidade já atingiu proporções epidêmicas e é um forte fator de risco para diversos distúrbios cardiovasculares e metabólicos como hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemia, aterosclerose e câncer. Apesar da constante recomendação das organizações de saúde sobre a importância do controle de peso, muitas vezes esse objetivo falha. A predisposição genética em combinação com um estilo de vida inativo e aumento da ingestão calórica leva ao ganho de peso excessivo. Embora há um consenso de que as mudanças no estilo de vida são essenciais para promover a perda de peso e seu controle, o tipo de exercício e a dieta ideal ainda são discutidos. Por muitos anos os estudos de intervenção nutricional concentram-se em reduzir a gordura da dieta, tendo poucos resultados positivos a longo prazo. Uma das estratégias mais estudadas nos últimos anos para a perda de peso é a dieta cetogênica. Muitos estudos têm demonstrado que este tipo de abordagem nutricional tem uma base fisiológica e bioquímica sólida e é capaz de induzir a uma perda de peso eficaz, além da melhoria dos parâmetros de risco cardiovascular. Esta revisão tem como objetivo discutir a base fisiológica de dietas cetogênicas e sua utilização em casos de obesidade, discutindo pontos fortes e fracos juntamente com os cuidados que devem ser tomados em pacientes obesos.

Em relação a obesidade, a dieta é uma das questões mais controvérsia e muitos tipos de dietas têm sido defendidos para a perda de peso. Mas há pouca evidência científica para recomendar uma dieta sobre a outra. A dieta mais comumente aceita é baseada em níveis reativamente altos de carboidratos e baixo teor de gordura. Essas dietas promovem pequenos resultados na perda de peso e sofrem baixa adesão a longo prazo. Ainda não há dados definitivos sobre quais protocolos dietéticos são mais eficazes, tanto no curto quanto no longo prazo.

A adesão de indivíduos a uma dieta baixa em carboidratos e baixa em gordura é pequena porque a maioria tem demonstrado preferências dietéticas para alimentos ricos em gorduras, altamente processados e contendo açúcar simples. Uma dieta com baixo teor de gordura pode aumentar o consumo de carboidratos refinados, piorando os problemas de peso e facilitando a dislipidemia, principalmente em pacientes com resistência a insulina. 

Embora a dieta cetogênica pode ser útil como parte do tratamento de várias doenças como a epilepsia, ela tem sido usada na obesidade, induzindo uma condição metabólica chamada de "cetose fisiológica". Após alguns dias em jejum ou em uma dieta de carboidratos bem reduzidos (abaixo de 20g/dia) as reservas de glicose do corpo ficam insuficientes para a produção de oxaloacetato (substrato usado no ciclo de Krebs -  principal via metabólica para formação de energia do nosso organismo - e para o fornecimento de glicose no sistema nervoso central). É necessária uma quantidade mínima de oxaloacetato para um funcionamento ótimo do ciclo de Krebs. 

O Sistema Nervoso Central (SNC) não pode usar ácidos graxos como fonte de energia, porque eles não passam pela barreira hematoenceláfica, assim a glicose é a única fonte de energia para o cérebro humano. Após 3 ou 4 dias em jejum em uma dieta com baixo carboidrato o SNC precisa de uma fonte de energia alternativa e isso é obtido da superprodução de Acetil-CoA que leva a produção de corpos cetônicos. Esse processo é chamado de cetogênese e ocorre principalmente na matriz mitocondrial do fígado. O fígado produz corpos cetônicos mas é incapaz de utilizá-los por causa da ausência da enzima necessária para converter o acetoacetato em acetoacetil-CoA. 

A condição de cetose, caracterizada por uma respiração com odor frutado, no caso da dieta cetogênica é uma condição fisiológica (jejum, baixo carboidrato, pós exercício) e não necessariamente um índice de condição patológica. Essa característica acontece devido a acetona formada no processo de cetose. 

Os corpos cetônicos são utilizados pelos tecidos como fonte de energia através de uma via que forma Acetil-CoA, a qual é utilizada no ciclo de Krebs (já explicado acima). A glicemia embora reduzida permanece dentro dos níveis fisiológicos. A glicose é formada a partir de duas fontes: ácidos graxos e glicerol vindos dos triglicerídeos. A importância do segundo aumenta gradualmente durante a condição de cetose. Nos primeiros dias de uma dieta cetogênica a principal fonte de glicose é a via de neoglicogênese dos aminoácidos, com o passar dos dias, a contribuição de aminoácidos diminui enquanto que a quantidade de glicose derivada do glicerol aumenta. De fato, o glicerol (liberado da hidrólise de triglicerídeos)  pode produzir mais de 16% de glicose no fígado durante uma dieta cetogênica e cerca de 60% após alguns dias de jejum completo. O SNC utiliza eficientemente os corpos cetônicos como fonte de energia. 

Não há dúvida que há forte evidência que o uso de dietas cetogênicas para perda de peso é eficaz, no entanto os mecanismos subjacentes aos efeitos da dieta cetogênica é ainda objetivo de debate. A hipótese original de Atikins sugeriu que a perda de peso é induzida através da excreção de corpos cetônicos, mas recentemente surgiram novas hipóteses. Uma delas é que o uso de energia a partir de proteína em dieta cetogênica é um processo "caro" para o corpo e por isso pode levar a um gasto maior de calorias e portanto aumentar a perda de peso em comparação com outras dietas. Durante a primeira fase da dieta 60 a 65g de glicose por dia são necessárias para o corpo, 16% deste é obtido a partir do glicerol, enquanto a maior parte é derivada via gliconeogênese a partir das proteínas de origem alimentar ou tecidual. A gliconeogênese é um processo que exige energia, calculado em mais ou menos 400 a 600 calorias/dia. Não há evidência experimental direta para sustentar esta hipótese, ao contrário, um estudo recente relatou que não houve mudanças no gasto de energia em repouso após uma dieta cetogênica. 

Alguns autores afirmam que os resultados obtidos com dietas cetogênicas podem ser atribuídos com a redução do apetite devido ao maior efeito de saciedade das proteínas ou alguns efeitos sobre o apetite através dos controle hormonal. Outros autores sugerem uma possível ação supressora do apetite diretamente ligada aos corpos cetônicos. A longo prazo a melhora da oxidação das gorduras visualizada pela diminuição do coeficiente respiratório. 

Podemos resumir os mecanismos hipotéticos de efeitos da perda de peso na dieta cetogênica em : 
1. Redução do apetite devido ao maior efeito de saciedade das proteínas, efeitos sobre o controle do apetite pelos hormônios e uma possível ação supressora do apetite direta pelos corpos cetônicos.
2. Redução da lipogênese e aumento da lipólise.
3. Maior eficiência metabólica no consumo de gordura destacada pela redução do coeficiente respiratório em repouso.
4. Aumento dos custos metabólicos da gliconeogênese e efeito térmico das proteínas. 

Pode-se argumentar que a dieta cetogênica tem efeitos benéficos além da simples perda de peso e gordura. Estudos sugerem que as cetonas podem proteger contra alterações cognitivas, comprometimento causado pelo ganho de peso e obesidade. Além disso, há algumas evidências que dietas cetogênicas podem ter efeitos positivos sobre o humor em indivíduos com sobrepeso. Mesmo que durante a fase muito precoce  de uma dieta cetogênica (4 a 5 dias) indivíduos podem às vezes reclamar de letargia, este efeito passa rapidamente e os sujeitos relatam posteriormente um estado de humor melhor. 

Embora a prevalência de resistência a insulina na obesidade não seja conhecida como comum, uma das características primárias da mesma é a diminuição da capacidade do músculo de utilizar a glicose circulante e a capacidade de retardar a produção de glicose hepática. Assim, indivíduos com resistência á insulina tem problema de metabolização de carboidratos dietéticos e irão desviar uma maior proporção desses carboidratos para o fígado onde serão convertidos em gordura (lipogênese) em vez de serem oxidados para energia no músculo esquelético. Os efeitos benéficos das dietas muito baixas em carboidratos em indivíduos obesos, não são apenas a perda de peso em si, mas também a melhora e controle da glicemia, hemoglobina glicada e marcadores lipídicos, bem como o uso reduzido ou retirada de insulina e outros medicamentos em muitos casos. Além disso, em experimentos com dietas normais em quantidades de gordura, indivíduos com resistência a insulina apresentaram marcadores da síndrome metabólica melhores do que dietas com baixo teor de gorduras. 

Outro benefício que tem sido pontuado é relacionado a longevidade. Porém  os dados estão restritos a modelos animais. 

Embora existam muitos estudos que demonstram que uma dieta cetogênica, pelo menos a curto prazo, resulta em maior perda de peso do que as dietas com baixo teor de gorduras, a partir de uma perspectiva de longo prazo o sucesso de uma abordagem nutricional é definida pela quantidade de peso recuperado. Desse ponto de vista há poucos dados disponíveis, em particular no que se refere ao chamado ciclo de peso ou efeito ioiô. Não há uma definição universalmente aceita de manutenção de perda de peso bem sucedida após uma dieta, mas indivíduos que perderam intencionalmente pelo menos 10% de seu peso corporal e mantiveram por pelo menos 1 ano podem ser considerados casos de sucesso. 

O critério de 10% é escolhido pelos seus bem documentados efeitos na melhora dos fatores de risco para diabetes e doenças cardiovasculares, enquanto que o critério de 1 ano foi de acordo com o US Instiute of Medice (IOM). Alguns estudos mostram que a grelina circulante e o apetite subjetivo que acompanham uma dieta hipocalórica foram reduzidos com uma abordagem cetogênica. Além disso, outros estudos mostram que 2 breves períodos de dieta cetogênica separados por períodos mais longos de dieta mediterrânea, levou a bem sucedida perda de peso a longo prazo e melhorias em fatores de risco para a saúde sem efeito de recuperação de peso.

Uma preocupação comum quando se faz dieta cetogênica é com relação ao teor de lipídeos no sangue, pois uma dieta reduzida de carboidratos e alta em proteínas e gorduras pode aumentar o colesterol e triglicerídeos, mas a maioria dos estudos recentes demonstram amplamente que a redução de carboidratos pode realmente levar a benefícios significativos na redução dos triglicerídeos no sangue. Além disso, foram relatados que a dieta cetogênica aumenta o tamanho e o volume de partículas de LDL colesterol, o que reduz riscos cardiovasculares, uma vez que partículas menores tem uma maior aterogenicidade. Há uma razão bioquímica racional atrás dos efeitos da dieta cetogênica na síntese do colesterol endógeno. Uma enzima chave na síntese deste colesterol é a HMGCoa redutase (o alvo das estatinas) que é ativada pela insulina, o que significa que um aumento da glicose no sangue e consequentemente dos  níveis de insulina levará a um aumento endógeno de colesterol. Assim uma redução dos carboidratos na dieta juntamente com colesterol levará a inibição na biossíntese do mesmo. 

Outra preocupação refere possíveis efeitos negativos para os rins. Sugere-se que altos níveis de nitrogênio, a excreção durante o metabolismo das proteínas pode causar aumento da pressão glomerular e hiperfiltração. Em indivíduos com a função renal intacta, níveis mais altos de proteínas na dieta causaram adaptações morfológicas, mas sem efeitos negativos. É importante, no entanto, atenção a indivíduos com insuficiência renal, transplante renal e indivíduos com síndrome metabólica ou outras condições relacionadas, pois estes podem ser mais susceptíveis ao efeito hipertensivo dos aminoácidos. 

Quanto aos efeitos globais da dieta cetogênica na saúde há diferentes opiniões. Em uma revisão baseada em estudos observacionais, sugere-se um possível efeito nocivo das dietas baixas em carboidratos e ricas em proteínas aumentando o risco de mortalidade por todas as causas, mas não houve efeito sobre a mortalidade relacionada a doenças cardiovasculares. Por outro lado, um grande estudo mostra que o aumento no teor de proteína e uma redução no índice glicêmico melhora a manutenção da perda de peso sem diferença nos efeitos adversos. Não há efeitos negativos para a saúde óssea.

A dieta cetogênica é principalmente uma dieta de redução de carboidratos com quantidades normais de proteínas que produz um estado metabólico peculiar. Não é dieta da proteína! Alguns estudos afirmam que a dieta cetogênica poderia afetar negativamente o metabolismo da glicose, mas nos estudos os pesquisadores realizaram a medição da glicose imediatamente após a dieta cetogênica. É razoável que depois de um período de dieta muito baixa em carboidratos haveria um aumento da glicose sensivelmente, por esta razão é aconselhável uma fase de transição de cetogênica para dieta normal.

Nos seres humanos os efeitos de uma dieta cetogênica muito prolongada são, até agora, não muito investigados, por isso este tipo de dieta pode ser usada com segurança por um período limitado (de 3 semanas à alguns meses)para estimular a perda de gordura, melhorar o metabolismo e ajudar a transição para um estilo de vida mais saudável.

Concluindo: um período de dieta reduzida em carboidratos pode ajudar a controlar a fome e pode melhorar o metabolismo oxidativo da gordura, portanto reduzir o peso corporal. Além disso, novos tipos de dietas cetogênicas, usando refeições que imitam alimentos ricos em carboidratos poderiam melhorar a continuidade da dieta. Deve-se dar atenção à função renal e à fase de transição da cetogênica para uma dieta normal, que deve ser gradual e bem controlada. Este tipo de dieta deve durar no mínimo 2 a 3 semanas (para induzir a cetose fisiológica) e no máximo 3 a 12 meses. 

Este é apenas um artigo, o qual resolvi compartilhar. Toda a dieta deve ser feita somente com acompanhamento de NUTRICIONISTA. Essa poderá ser uma estratégia adotada, por um período, jamais para o resto da vida, exceto em alguns casos de problemas sérios de saúde. Mas quem define se é ou não a estratégia adequada para cada pessoa é o profissional capacitado para isso: NUTRICIONISTA

Um abraço e até o próximo post!









3 de fevereiro de 2017

GORDURA SATURADA: MOCINHA OU VILÃ?

Olá Pessoal! 



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Para começar 2107 vou falar de algo que está sendo muito questionado ultimamente: a gordura saturada realmente faz mal para a saúde? Para responder a esta pergunta comecei a ler alguns artigos científicos e separei um deles para dividir aqui com vocês.  O artigo escolhido foi este: 


INTAKE OF SATURATED AND TRANS UNSATURATED FATTY ACIDS AND RISK OF ALL CAUSE MORTALITY, CARDIOVASCULAR DISEASE, AND TYPE 2 DIABETES: SISTEMATIC REVIEW AND META - ANALYSIS OF OBSERVATIONAL STUDIES. (BMJ, 2015).

Ingestão de ácidos graxos saturados e insaturados trans e risco de todas as causas de mortalidade, doença cardiovascular e diabetes tipo 2: revisão sistemática e meta-análise de estudos observacionais. 

Este artigo, publicado em 2015, é uma meta-análise de estudos observacionais. 

O objetivo deste estudo era de analisar sistematicamente as associações entre gordura saturada e gordura trans com todos os riscos de mortalidade, doenças cardiovasculares (DCV), acidente vascular cerebral (AVC) e diabetes tipo 2. 

Esta revisão foi conduzida de acordo com o processo das diretrizes da OMS (Organização Mundial de Saúde). Foram realizadas pesquisas observacionais avaliando as associações entre gordura saturada e/ou trans e saúde. Os estudos escolhidos incluíram qualquer estudo observacional em humanos (como coorte prospectivo, caso-controle, caso controle alinhado ou caso-coorte). Foram analisados estudos de diversos países. 

As gorduras saturadas contribuem com cerca de 10% do valor total energético da dieta norte-americana. As principais fontes de gordura saturada presente nos alimentos são: manteiga, leite de vaca, carne, salmão, ovos, manteiga de cacau, óleo de coco, óleo de palma e manteiga de coco. Meta- análises anteriores (estudos de coorte prospectivos) relataram aumento de risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, AVC e doenças coronarianas quando há excesso de consumo de gordura saturada. Ensaios de intervenção demonstram benefícios cardiovasculares modestos com a redução de gordura saturada e aumento de gorduras polinsaturadas. Mas a maioria dos ensaios durou no máximo 2 anos, tempo considerado curto para conclusões. Outra meta-análise de estudos randomizados sugeriu uma redução de 17% no risco de DCV com a diminuição do valor energético proveniente de gorduras saturadas de 17% para 9%. 

As gorduras trans representam cerca de 1 a 2% da energia da dieta norte-americana. São produzidas industrialmente através da hidrogenação parcial de óleos vegetais. Ela pode estar presente naturalmente também em alguns alimentos provenientes de animais ruminantes (carne, leite e derivados). Uma meta-análise relatou que a gordura trans produzida industrialmente pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, embora isso pudesse refletir os baixos níveis de gorduras trans naturais em comparação com as altas doses de gordura trans industrial tipicamente presentes em alimentos processados. 

As diretrizes dietéticas recomendam que as gorduras saturadas devem ficar menores que 10% do valor total de gorduras e entre 5-6% para aqueles que precisam reduzir o LDL colesterol. A gordura trans deve estar no máximo 1% do total de energia ou o mais baixo possível, principalmente para para reduzir o risco de doenças coronarianas e AVC. 

Nesta síntese de evidências observacionais não foram encontradas associações claras entre o maior consumo de gorduras saturadas e mortalidade por qualquer causa, DCV, doença coronariana, AVC ou diabetes tipo 2 em humanos saudáveis. No entanto, o consumo de gordura trans foi associado ao aumento da mortalidade por qualquer causa, aumento de 28% no risco de desenvolver DCV e 21% no risco de doença coronariana. Além disso, esses dados sugerem que as gorduras trans industriais conferem um aumento de 30% no risco e morte por DCV e 18% no risco de morte por doença coronariana. Por causa da inconsistência dos estudos não foi possível confirmar uma associação clara entre gordura trans e diabetes tipo 2. Não foram encontradas relações entre gorduras e AVC.

Não houve associação entre a ingestão de gordura saturada e causas de mortalidade, porém os ensaios clínicos controlados têm demonstrado que quando os carboidratos da dieta são substituídos por gorduras saturadas há um aumento do colesterol total e LDL. Foram demonstradas anteriormente associações diretas e positivas entre o aumento das concentrações de colesterol total e LDL e causas de mortalidade por doença coronariana. Nesta revisão não foi encontrado nenhuma associação neste sentido. Alimentos ricos em gordura saturada, especialmente processados e carnes vermelhas no entanto tem sido associados com o aumento da mortalidade e risco de câncer.

Um pequeno corpo de evidências sugere que os aumentos de gordura saturada e risco de mortalidade por doença cardiovascular ocorra em pessoas com diabetes. Isso poderia se relacionar com o aumento do colesterol LDL, efeito de gordura saturada e outras consequências metabólicas da resistência a insulina em pessoas com diabetes. Em estudos metabólicos, a gordura saturada prejudica a sensibilidade a insulina e gordura insaturada melhora o metabolismo da glicose, substituir a gordura saturada por monoinsaturada aumenta lipoproteínas e controle glicêmico em pacientes com diabetes tipo 2. 

As gorduras saturadas não foram associadas com doença coronariana, mas encontrou-se uma tendência de associação com mortalidade por esse tipo de doença. Em 11 estudos de coorte prospectivos a substituição de gordura saturada por gordura poliinsaturada reduziu o risco coronariano em 13%, consistente com os resultados e ensaios clínicos controlados randomizados. Mas a substituição de gordura saturada por monoinsaturada ou carboidratos aumenta o risco de infarto do miocárdio não fatal. Os carboidratos em dietas ocidentais são normalmente altamente processados, alimentos com alta carga glicêmica, que poderiam aumentar o risco quando substituem as gorduras saturadas. Benefícios inconsistentes  foram encontrados quando troca-se uma fonte de gordura saturada por outra, provavelmente porque muitos ácidos graxos saturados são comuns em diferentes fontes alimentares. 

Os pesquisadores não encontraram nenhuma associação entre gorduras saturadas e risco de acidente vascular cerebral isquêmico (AVC), embora o risco relativo de AVC foi reduzido em 18% quando o consumo de gordura saturada foi reduzido. Uma dieta rica em gorduras monoinsaturadas foi associada a redução da pressão arterial. 


Não encontraram também nenhuma associação entre gordura saturada e gordura trans e o desenvolvimento de diabetes tipo 2. 


Foram encontradas associações fortes entre a ingestão de gordura trans e doença coronariana e mortalidade por tal doença. Os efeitos sobre o risco de doenças cardiovasculares são medidos através de lipídeos no sangue e processos inflamatórios. A descoberta é que um aumento de 2% no valor calórico total, através de gorduras trans está associado a um aumento de 25% no risco de doença coronariana e 31% no risco de mortalidade. 


Dois estudos prospectivos avaliaram a associação entre gorduras trans e AVC, mas são inconclusivos. A associação com o risco de AVC deve ser estudado mais profundamente.


Esta revisão sistemática e meta-análise de provas a partir de grandes estudos observacionais geralmente bem executados, não suporta a associação de gorduras saturadas com doença cardiovascular, doença coronariana, AVC e diabetes tipo 2 em indivíduos saudáveis. Em grandes estudos prospectivos, quando as gorduras polinsaturadas substituíram as gorduras saturadas o risco de doença cardiovascular reduziu, mas não quando a gordura trans ou o carboidrato são a escolha de substituição. A ingestão de gordura trans está associada a um aumento de 20 a 30% no risco de mortalidade por doença coronariana, mas as associações com diabetes e AVC não estão claras. 


Resumindo o artigo: encontraram forte associação entre gordura trans e doenças cardiovasculares, mas não encontraram evidencias da associação com diabetes tipo 2 e AVC. Nenhuma associação entre gorduras saturadas e todas as causas de mortalidade (DCV e DC) ou diabetes tipo 2 foi encontrada, mas quando a gordura saturada é substituída por carboidratos refinados há um aumento de LDL. A substituição de gordura saturada por polinsaturada pode reduzir o risco relativo de doenças coronarianas. E no final, o artigo ainda propõe que as diretrizes nutricionais atuais precisam ser revistas. 


Quero deixar claro que essas conclusões não são minhas, eu simplesmente dividi um artigo científico recente que fala sobre assuntos atuais em evidência.


Não recomendo a ninguém se entupir de gordura saturada, ou qualquer outro tipo de gordura. Mas acredito que não precisamos ter tanto medo dela. O principal é ter equilíbrio, sempre!!!! 


Espero ter contribuído um pouco e vou estudar ainda mais, para trazer assuntos atuais e interessantes para quem me acompanha.


Um abraço e até o próximo post.


Fonte:https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26268692








26 de setembro de 2016

ALIMENTAÇÃO PARA OSTEOPOROSE

Olá Pessoal!
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osteoporose é um distúrbio caracterizado pela redução da massa óssea, levando a um aumento da fragilidade esquelética e do risco de fraturas. É uma anormalidade no processo de remodelação óssea sistêmica, com desequilíbrio no acoplamento entre a formação e a reabsorção óssea, privilegiando a última. É uma doença óssea metabólica comum, com predominância em indivíduos idosos e mulheres com deficiência estrogênica.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) define a osteoporose como uma doença metabólica óssea sistêmica, caracterizada por diminuição da massa óssea e deterioração da microaquitetura do tecido ósseo, com consequente aumento da fragilidade do osso e da suscetibilidade a fraturas. Na osteopenia, também ocorre perda de massa óssea, porém sem comprometimento da microarquitetura. A redução da massa óssea é um fenômeno natural fisiológico e não patológico, mas que pode levar ao desenvolvimento da osteoporose.

Entre as causas primárias da osteoporose, estão a predisposição genética, carências alimentares, baixa exposição solar, sedentarismo, degeneração secundária ao envelhecimento, e deficiência estrogênica em mulheres na menopausa. Na verdade ela é uma doença multifatorial, envolvendo fatores comportamentais, alimentares e hormonais.

Diversos medicamentos podem ser considerados como indutores da osteoporose, tais como: corticosteroides, metotrexato, antiácidos, inibidores da bomba de prótons, heparina, dicumarínicos, fenobartibal, diuréticos, laxantes, fenitoína e carbamazepina, antibióticos.

Embora seja mais comum a manifestação da osteopenia e osteoporose em pessoas acima de 50 anos, atualmente há aumento de sua incidência em jovens.

Uma ampla avaliação das causas deve ser feita, pois este fato pode ocorrer devido a uma síndrome de má absorção. Doenças alérgicas, principalmente as classificadas como tardias, normalmente causadas por má digestão proteica (proteínas do leite de vaca, da soja, do trigo ou qualquer outro alimento que a pessoa seja sensível) podem causar alterações na permeabilidade intestinal e no equilíbrio da microbiota levando a disbiose. Erros no comportamento alimentar podem levar a carências nutricionais de vitaminas, minerais e ômega 3. Excessos de fatores antinutricionais que podem comprometer a absorção, utilização e excreção de cálcio e outros nutrientes. Se esses fatores forem associados ao uso crônico de medicamentos que interferem com a biodisponibilidade dos micronutrientes, podem interferir na remodelação óssea, agravando a situação.

O pico de massa óssea é um preditor de osteoporose mais importante do que o ritmo de perda de massa óssea relacionada com a idade. Assim, maximizar o pico de massa óssea pode ser considerado como principal estratégia na prevenção.

A síntese óssea predomina nas crianças. No adulto o pico da massa óssea ocorre provavelmente entre os 20 e 35 anos. Com o envelhecimento, naturalmente perdemos massa óssea, pois há um aumento da reabsorção. O processo natural desta perda começa aproximadamente a partir dos 40 anos, mas pode progredir mais rápido nas mulheres, devido a diminuição dos hormônios como estrogênio. Mas isso não significa que automaticamente haverá a incidência de osteopenia ou mesmo osteoporose. Simplesmente a densidade da massa óssea naturalmente será menor do que a do adulto jovem.

A prevenção da osteoporose se faz através de uma alimentação equilibrada, com quantidade de calorias adequada e suplementação não só de cálcio, mas também de todos os nutrientes envolvidos na sua absorção. A atividade física regular também é importante para garantir uma reserva suficiente de massa óssea, protegendo o esqueleto contra as perdas futuras.

O adequado consumo de cálcio é considerado um fator protetor contra a osteoporose. Porém um dos fatores que pode levar ao desenvolvimento de osteoporose, apesar de envolver o cálcio, não está exclusivamente relacionado ao baixo consumo do mesmo. Acontece que a baixa ingestão de cálcio e outros nutrientes envolvidos na mineralização óssea se associado a uma baixa eficiência de absorção e uma alta perda pelo organismo, irá provocar uma redução na reserva de cálcio e sua fixação no osso, levando a fragilidade óssea.

O fósforo por exemplo, deve estar presente no organismo em uma concentração adequada para que se tenha uma boa mineralização óssea, o seu excesso (dietas ricas em chocolate, carnes, refrigerantes, ketchup, mostarda) interfere de forma negativa nesse processo.

Muitos nutrientes são necessários para à formação óssea, como vitamina, minerais, aminoácidos, pré e próbióticos. Portanto, o déficit de qualquer um desses nutrientes comprometerá as funções do cálcio. O desenvolvimento de uma osteoporose não significa que o organismo apresenta uma deficiência de cálcio e sim que o cálcio teoricamente destinado a formação óssea está sendo utilizado em outro local. Além disso, o acúmulo de cálcio pode levar a microcalcificações, desenvolvendo inclusive artrite. Ou ele pode se depositar em tecidos moles, causando o endurecimento das artérias por microcalcificação das mesmas. O excesso de cálcio pode aumentar a pressão arterial, promover formação de cálculos de oxalato de cálcio nos rins...entre outros problemas. Por outro lado a carência de um ou mais nutrientes necessários ao processo de mineralização óssea prejudica a utilização efetiva do cálcio.

Portanto, ao se prevenir ou tratar a osteoporose a preocupação deve ser com a biodisponibilidade do cálcio e não apenas se ele é bem absorvido, levando em consideração a presença de todos os nutrientes necessários e ainda outros fatores que prejudicam esse processo. A presença de grande quantidade de proteínas de origem animal, excesso de gordura saturada, fosfatos, álcool, açúcar refinado, ácido oxálico, fibras insolúveis e cafeína também comprometem a absorção do cálcio ou aumentam a sua excreção pelas fezes e urina.

Com relação ao consumo proteico, há duas situações: a baixa oferta proteica pode determinar perda de massa óssea por interferir na síntese normal da matriz proteica óssea, além de reduzir os níveis de fatores peptídicos de crescimento e enzimas reguladoras de todo o processo de formação óssea. Já o excesso de proteínas, principalmente de origem animal gera grandes quantidades de radicais ácidos, que são excretados pela urina na forma de sais de conjugação com cálcio, utilizando portanto esse mineral como forma de tamponamento ácido. Por outro lado uma dieta rica em vegetais e frutas fornece os radicais básicos que podem neutralizar o ácido proveniente do metabolismo proteico, sem afetar o metabolismo de cálcio. Esse aspecto pode sugerir uma certa proteção aos vegetarianos com baixa ingestão de cálcio alimentar.

O consumo excessivo de cafeína presente no café, bebida energéticas, chá mate, chá preto e refrigerantes aumenta a excreção urinária de cálcio, conferindo um risco adicional ao desenvolvimento da osteoporose. O excesso de sal também pode causar o mesmo efeito.

Bebidas alcoólicas em excesso também são prejudiciais ao tecido ósseo, devido aos efeitos adversos sobre o metabolismo de proteínas, comprometimento das funções gonadais e por uma ação tóxica direta sobre os osteoblastos.

Temos que tomar cuidado com a suplementação isolada de cálcio, principalmente em altas doses, pois a osteoporose nem sempre é causada somente pela falta de cálcio, visto que são necessários outros nutrientes (já dito anteriormente) como o magnésio para a formação de massa óssea. Isso é tão sério que devemos ter atenção especial. Um exemplo: o excesso de cálcio gera depleção de magnésio, mineral associado à a formação de serotonina, se há menos magnésio, há menos serotonina, podendo gerar depressão.

O estrogênio também exerce um importante papel na manutenção do cálcio no osso. A queda da concentração deste hormônio na menopausa é um dos fatores que atua na reabsorção óssea, aumentando a incidência de osteoporose.

A dieta alimentar para prevenção da osteoporose deve ser rica em frutas, cereais integrais e vegetais ricos em cálcio como o espinafre, brócolis, couve rúcula, todos os vegetais verde escuros. Além de carnes e laticíneos, sempre respeitando as alergias e intolerâncias individuais. O sol é importantíssimo para a síntese de vitamina D, a qual é fundamental para a fixação do cálcio no ossos.

As fontes de cálcio disponíveis na natureza são variadas e principalmente as de origem vegetal, são ricas em todos os nutrientes que trabalham em conjunto com o cálcio, otimizado sua biodiponibiliade. São elas: produtos lácteos, tofu, quinoa, amaranto, gergelim, leguminosas, repolho, couve, sardinha, folhas de nabo, mostarda, todos os vegetais verde escuros.

Para a prevenção ou tratamento da osteoporose uma alimentação equilibrada e nutritiva é o carro chefe e algumas dicas são importantes:

  • Dar preferência aos alimentos mais naturais, evitando ao máximo os industrializados;
  • Alimentar-se calma, mastigando bem os alimentos;
  • Consumir salada verde crua no almoço e no jantar;
  • Beber muita água ao longo do dia; mas evitar líquidos com as refeições;
  • Consumir frutas in natura, de preferência orgânicas;
  • Variar os alimentos o máximo possível;
  • Evitar cafeína, álcool e açúcar;
  • Evitar o excesso de proteínas animais;
  • Evitar o excesso de sal.

A atividade física regular é um fator importante pela geração de forças de tesão muscular, com estímulo constante à neoformação óssea. Quanto mais precoce for iniciada a atividade, maior o pico de massa óssea que se atinge até os 30 anos. Os exercícios estimulam a liberação de hormônios responsáveis pela incorporação do cálcio no osso, e indiretamente ao aumentar a força muscular e a coordenação ajuda a evitar quedas e a dar mais sustentabilidade aos ossos.

Mais importante do que ingerir grandes quantidades de cálcio é consumir equilibradamente todos os nutrientes e manter bons hábitos alimentares, além de evitar o sedentarismo.

Um abraço e até a próxima!

Fontes: Tratado de alimentação, nutrição e dietoterapia, 2007; Nutrição Clínica Funcional: Suplementação Nutricional, 2012; Suplementação Nutricional na Prática Clínica, 2015;  Cálcio, na forma, na medida e no lugar certo, 2011.

2 de agosto de 2016

NUTRIÇÃO NA CIRURGIA BARIÁTRICA

Olá pessoal!!

                     

O assunto hoje é sobre um procedimento que está cada vez mais comum entre as pessoas que sofrem com a obesidade e procuram uma solução definitiva para o problema. Vários pontos precisam ser abordados antes da decisão de fazer uma cirurgia bariátrica. 

A obesidade é caracterizada pelo excesso de peso e mais especificamente pela desproporção do excesso de gordura corporal. A sua prevalência dobrou na última década e tem aumentado cada vez mais no mundo inteiro, tornando-se  preocupação de saúde pública.

A obesidade mórbida é classificada quando o indivíduo apresenta índice de massa corporal (IMC) maior ou igual a 40kg/m2, ou quando o individuo apresenta 50kg acima da média de peso esperado para sua altura. É o grau mais sério de excesso de peso e está relacionado a diversas condições prejudiciais a saúde, piorando a qualidade de vida, o desempenho no trabalho e o relacionamento social. Entre as doenças associadas a obesidade podemos citar: diabetes, hipertensão, câncer, apnéia do sono, artrose, dislipidemias, etc.

A obesidade mórbida é uma condição crônica difícil de ser tratada, sendo necessário acompanhamento multiprofissional. Em geral os pacientes apresentam uma longa história de excesso de peso e várias tentativas frustadas de tratamentos. Em razão desses transtornos e comorbidades muitos recorrem a cirurgia bariátrica. O principal objetivo da bariátrica é reduzir as  comorbidades que podem surgir com a obesidade. 

No entanto, a indicação deve se criteriosa e somente para aqueles pacientes que realmente se encaixam no perfil de necessidade desse tipo de cirurgia. As indicações são para pacientes que apresentam IMC maior ou igual a 40kg/m2, que tenham tratamento clínico por mais de dois anos consecutivos sem sucesso. Devem apresentar uma ou mais comorbidades (nesse caso pacientes acima de 35kg/m2 já podem ser indicados).

As contraindicações para a realização dessa cirurgia são: risco de mortalidade, idade inferior a 18 anos e superior a 65 anos, retardo mental, transtornos psiquiátricos, dependência de álcool ou drogas, depressão, cirrose hepática, doenças renais, disfunções hormonais, gestação, hérnia hiatal volumosa, varizes esofágicas, doenças do trato digestivo superior e doença cardio-pulmonar severa. 

Há três tipos de cirurgia: restritivas, desabsortivas e mistas. As primeiras promovem perda de peso porque causam saciedade precoce e restringem a ingestão de alimentos. As técnicas desabsortivas funcionam pela redução expressiva do segmento intestinal capaz de absorver nutrientes. Já as mistas restringem a ingestão alimentar, além de promover absorção de parte dos nutrientes ingeridos. Os principais procedimentos operatórios atualmente são:


  • Restritivas (visam diminuir a capacidade volumétrica do estômago): Banda gástrica ajustável e Gastroplastia vertical com bandagem
  • Desabsortivas (objetivam atingir a perda de peso pela incapacidade do intestino de absorver nutrientes): Derivação biliopancreática de Scopinaro e Duodenal Switch.
  • Mista (associação das duas modalidades anteriores): Bypass gástrico em Y de Roux


Na Banda gástrica ajustável coloca-se uma prótese anelar em torno do estômago, acoplado a um dispositivo que permite inflar a banda, aumentando ou diminuindo a restrição.  A Gastroplastia vertical assemelha-se  a primeira. O Bypass gástrico em Y de Roux é feito com anel de silicone, possui reservatório gástrico de 20ml, cujo esvaziamento é controlado por anel externo e estreito, dando a sensação de saciedade precoce. O desvio do trânsito alimentar, evitando o duodeno e jejuno proximal é responsável pela desabsorção de lipídeos, carboidratos, vitaminas, ferro, cálcio (chamado de Capella). A derivação biliopancreática consiste em uma gastrectomia parcial, criando um reservatório de 200 a 500ml, o que provoca pequena restrição. Um longo desvio intestinal permite absorção de nutrientes em um pequeno segmento intestinal.

Dependendo do tipo de cirurgia alguns efeitos colaterais são muito comuns: diarréia crônica, flatulência, má absorção de nutrientes, síndrome de dumping (esvaziamento gástrico muito rápido devido a ingestão de açúcar, gordura ou leite e derivados - a alta concentração de açúcar e a sua chegada muito rápida ao intestino faz com que ele absorva água do organismo para diluir esse açúcar, causando a síndrome).

As cirurgias envolvendo restrição alimentar e/ou má absorção dos nutrientes induzem a perda de peso rápida, mas também são associadas com riscos nutricionais. Portanto, o tratamento nutricional na cirurgia bariátrica tem como objetivo promover a perda de peso saudável e prevenção do desenvolvimento de deficiências nutricionais por meio de uma reeducação alimentar, levando modificação no comportamento alimentar e no estilo de vida desses indivíduos. Além da redução de comorbidades e melhora da qualidade de vida. O paciente deve ser acompanhado antes, durante e pós cirurgia. Lembrando que este paciente deve ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar: médico, nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta.

Qualquer que seja a técnica cirúrgica devemos lembrar que a cirurgia por si só não promove mudança real e efetiva nos hábitos alimentares e comportamentais do paciente. O acompanhamento nutricional e psicológico são fundamentais para tal. A obesidade não é apenas o resultado do aumento da ingestão de alimentos, assim como a bariátrica não é uma solução isolada para a perda de peso permanente. O objetivo do acompanhamento nutricional é uma nutrição celular adequada, que vai além das recomendações de consistência da dieta, necessidade de mastigação e valor calórico. É preciso mudar o processo que desenvolveu a obesidade. 

No pós operatório a baixa ingestão calórica e a diminuição da absorção de nutrientes por um longo período podem acarretar deficiências de macro e micronutrientes, por isso o processo alimentar é a base do tratamento. O programa de realimentação leva em consideração a progressão da consistência em fases e o progresso de volumes pequenos para volumes maiores. A evolução da alimentação deve ser realizada de forma gradativa e bem monitorada, aumentando-se a consistência e o volume ao longo de 2 meses.

No pós operatório imediato (quando liberada a alimentação) o paciente pode ingerir pequenos volumes de água, progredindo para dieta com líquidos claros. Após a alta hospitalar, com o retorno da função intestinal, o paciente permanece com dieta de líquidos claros por mais 4 dias (totalizando 1 semana pós cirurgia).  Após esse período inicia-se a fase da dieta líquida, para adaptação a pequenos volumes e repouso gástrico, permanecendo por 15 dias. Na 4ª semana pós cirurgia realiza-se a transição para dieta pastosa, a qual dura mais 15 dias. A terceira fase corresponde a dieta branda, com duração de também 15 dias, e após, a dieta torna-se de consistência normal, porém com volumes controlados. A mastigação e a escolha correta dos alimentos fontes de nutrientes são fundamentais para o sucesso dessa transição. Os alimentos industrializados devem ser evitados e uma alimentação mais natural possível é de extrema importância para fornecimento de nutrientes adequados. 

No pós operatório  pode ocorrer a desidratação pela redução da ingestão de líquidos, decorrente da dificuldade  de ingerir grandes quantidades, além dos frequentes episódios de fezes líquidas, eventos de vômitos e diarreias, ocasionando perda fluídica. Quando a hidratação não é suficiente poderá acarretar a formação de nefrolitíase, pelo aumento transitório de ácido úrico, decorrente da perda de peso rápida. É indicado a ingestão se 2000ml de líquidos ao dia, distribuídos em pequenos volumes por vez.

As necessidades proteicas em pacientes pós bariátrica são aumentadas, pois principalmente nas cirurgias desabsortivas, a proteína pode ser perdida nas fezes. A suplementação proteica muitas vezes é necessária.

Nas cirurgias de Bypass gástrico e derivação biliopancreática, a ingestão de carboidratos de absorção rápida e açúcares pode causar a síndrome de dumping, caracterizada por mal estar pós-prandial, fraqueza, taquicardia, sudorese e vertigem. Alguns pacientes pós bariátrica também podem apresentar intolerância a lactose, devendo-se excluir leite e derivados.

As gorduras polinsaturadas e monoinsaturadas devem ser ingeridas para prevenção de deficiências dos ácidos graxos essenciais, as quais se caracterizam principalmente por alopécia pós operatória.

Algumas deficiências de vitaminas e minerais são comuns causando anorexia, náusea, vômito, ansiedade, depressão, anemias, queda de canelo, unhas fracas, pele ressecada, alteração de paladar. Portanto o cuidado com a suplementação de nutrientes deve ser dobrado. Técnicas mistas e desabsortivas podem favorecer as carências nutricionais.

A suplementação é necessária, pois somente com a alimentação é inviável atingir um mínimo necessário de nutrientes para manter as funções orgânicas, quanto mais para otimizar esses processos, buscando sempre o funcionamento adequado do corpo. São necessários nessa suplementação nutrientes para ativação do sistema imunológico e antioxidantes (zinco, selênio, manganês, vitamina C , vitamina D, vitamina A, cobre), nutrientes precursores de neurotransmissores (magnésio, vitamina B6), nutrientes que auxiliam na eliminação de toxinas do organismo (taurina, vitamina C, molibidênio) e nutrientes que modulem a inflamação (ômega 3). 

Algumas orientações pós cirurgia são básicas, porém extremamente importantes:
  • Variedade alimentar. Não comer todos os dias a mesma coisa. Quanto mais variada a alimentação, mais nutrientes são fornecidos. 
  • Alimentar-se com calma e consciência. Prestando atenção ao que come. MASTIGAR MUITO BEM!
  • Ingerir de 2l a 3l de água ao dia e em intervalos regulares (água, água de coco, chá de ervas, sucos naturais diluídos). Evitar a ingestão de líquidos durante a refeição e na primeira hora após o seu término, facilita o processo da digestão e absorção dos nutrientes.
  • Alimentar-se a cada 2 ou 3 horas, estabelecer horários para as refeições. Não pular refeições e não beliscar entre elas.
  • Nas refeições principais utilizar todos os grupos alimentares (carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais).
  • Retirar os alimentos alérgenos.
  • Retirar alimentos com aditivos químicos (sucos em pó, gelatina prontas, temperos prontos, isotônicos industrializados).
  •  Utilizar no preparo dos alimentos, azeite de oliva e temperos naturais: cheiro verde, alho, cebola, ervas aromáticas, que podem ser utilizados a vontade.
  •  Evitar refeições volumosas, principalmente á noite.
  •  Evitar a substituição de uma refeição completa por lanches.
  • Não consumir: açúcar, balas, chocolates, achocolatados, bolachas, doces em geral, refrigerantes, bebida alcoólicas, frituras, embutidos, produtos industrializados.
  •  Evitar o consumo habitual de café, chá preto, chá mate.
  •  Evitar leite e derivados, soja, trigo, centeio, cevada, cítricos, amendoim, aspartame, glutamato monossódico e cafeína.
  • Seguir a recomendação da evolução da consistência da dieta prescrita.
Considerando-se a dificuldade de sucesso no tratamento clínico da obesidade, a cirurgia bariátrica pode se uma opção de tratamento. Porém, a indicação deve ser criteriosa e a atenção nutricional permanente, desde o pré-cirúrgico e até pelo menos um ano após a cirurgia. O acompanhamento multiprofissional em todas as etapas desse processo é a peça chave para o sucesso do paciente!

Um abraço e até o próximo post!



16 de maio de 2016

ALIMENTAÇÃO NA MENOPAUSA

Olá Pessoal!

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Todas nós mulheres um dia enfrentaremos a tão temida Menopausa.... Por isso é importante pensar nela desde cedo, principalmente quando nos referimos a alimentação. O que comemos pode nos ajudar a ter uma menopausa mais tranquila, principalmente em relação aos seus sintomas tão inconvenientes. 

As mulheres em sua maioria passam por regularidade menstrual a maior parte da vida reprodutiva. Após esse período inicia-se a irregularidade do ciclo menstrual que resultará na cessão permanente da menstruação e perda da função folicular ovariana, consequentemente perda da capacidade reprodutiva. Chamada Menopausa.

A mulheres que param sua menstruação antes de 40 anos de vida estão dentro da classificação de menopausa precoce. As causas podem ser genéticas, estresse, doenças auto-imunes, tratamento de câncer, infecções. 

A fase anterior a menopausa , a qual é caracterizada pelo início de alterações endocrinológicas, biológicas e clínicas é denominada Perimenopausa. As alterações no ciclo menstrual e na função ovariana durante essa fase são acompanhadas de importantes alterações hormonais, as quais são responsáveis por diversos sintomas característicos. Essas alterações estão relacionadas com risco aumentado no desenvolvimento de diversas desordens metabólicas. Na menopausa há pausa da produção de estrogênioDentre outros hormônios que se alteram na menopausa estão: FSH, testosterona, dihidrotestosterona, DHEA, IGF, Estradiol. 

Estradiol, testosterona, dihidrotesteosterona e DHEA são hormônios neuroprotetores por atuarem em diversas áreas do sistema nervoso central. O estradiol reduz os efeitos dos radicais livres nas células neuronais, por exemplo. Além disso ele age como neuromodulador regulando a ação de neurotransmissores como acetilcolina, serotonina, catecolaminas e dopamina. 

Essas alterações hormonais que ocorrem na perimenopausa levam a mudanças neuroendócrinas (queda de serotonina, dopamina, aumento de cortisol), as quais são gatilhos para as alterações de humor, ansiedade, depressão, insônia, enxaqueca, perda de memória, redução da concentração, entre outros problemas. 

Já na menopausa os sintomas geralmente são: ressecamento da pele, ressecamento vaginal, baixa libido, dores articulares, depressão, perda de memória, cansaço, infertilidade, perda de massa muscular e óssea, ondas de calor e retenção de líquidos. 

A mulher atinge o pico de massa óssea por volta dos 30 anos, depois disso as alterações hormonais que precedem a menopausa, ou ocorrem durante a mesma passam a exercer importante influência na redução da densidade mineral óssea. Os baixos níveis de estrogênio estão relacionados com maior probabilidade de desenvolver osteoporose. Tanto o sol quanto os exercícios físicos vão ajudar a diminuir a perda de massa óssea. Na menopausa com a redução do estrógeno a fixação do cálcio nos ossos fica prejudicada, e esse mineral precisa da vitamina D para ser absorvido, e esta precisa do sol para ser sintetizada. Os exercícios de impacto ajudam a fixar o cálcio no osso.

O risco de doenças cardiovasculares aumenta nas mulheres após a menopausa. Juntamente com as alterações hormonais durante os 3 a 5 primeiros anos da menopausa, ocorrem também mudanças metabólicas como aumento dos níveis de LDL, triglicerídeos e colesterol total, as quais associadas a uma maior deposição de gordura abdominal predispõe a mulher a um maior ricos de desenvolver doenças cardiovasculares. 

Os sintomas acontecem pela queda dos hormônios, mas com um estilo de vida saudável, atividade física, controle do estresse e uma alimentação adequada podemos reverter esses sintomas. Alguns alimentos são nossos aliados nesse momento:

- LINHAÇA: é a melhor fonte de uma substância parecida com o estrógeno, chamada de fito-hormônio (fitoestrógeno), e  ômega 3, que ajuda a combater a secura de mucosas. 

- TOFU, MISSÔ: ricos em cálcio, previnem a osteoporose e também possuem fitoestrógeno. Esses alimentos são feitos de soja fermentada que ajuda na reposição desse fitoestrógeno. Todos os alimentos ricos em cálcio podem ajudar a amenizar a perda de massa óssea.

- LEITE E DERIVADOS: importantes nessa fase, pois são fontes de cálcio. Mas atenção as pessoas alérgicas ou intolerantes!!! 

- GERGELIM: também é uma excelente fonte de cálcio e gorduras boas. 

LEGUMINOSAS: feijão, lentilha, ervilha, grão de bico. Também contém fitoestrógeno.

- ABACATE, AZEITE DE OLIVA EXTRA VIRGEM E OLEAGINOSAS: são ricos em vitamina E que ajuda a melhorar a secura nas mucosas, diminui a irritabilidade e a depressão, pois ela age nos neurotransmissores.

- CÍTRICOS em geral (limão, laranja): são fontes de vitamina C, a qual ajuda a diminuir as ondas de calor.

-VERDURAS VERDES ESCURAS: ricas em magnésio, nutriente que ajuda a relaxar, melhora a irritabilidade e também é fundamental para a absorção do cálcio.

- CARNES MAGRAS, OVOS: importantes fontes de proteínas, fundamentais para sustentação da pele. 

- FIBRAS: podem ajudar não só no funcionamento intestinal, mas também no equilíbrio do organismo como um todo. Para o aproveitamento de todos os benefícios dos alimentos citados o intestino deve estar muito saudável! 

- ÁGUA: a hidratação é de extrema importância. 

Enquanto alguns alimentos nos ajudam nessa fase, outros podem atrapalhar:

- CHOCOLATE, CAFÉ: o excesso desses alimentos que são ricos em metilxantina podem piorar ainda mais o quadro hormonal.

- SAL, BEBIDAS ALCÓOLICAS, CONDIMENTOS, GENGIBRE, PIMENTA, INDUSTRIALIZADOS: podem piorar os fogachos (calores). O sal e as bebidas alcoólicas também aumentam a retenção de líquidos, sintoma muito comum nas mulheres, principalmente na menopausa. 

- AÇÚCAR E FARINHA BRANCA: o seu excesso altera o humor, aumenta a irritabilidade e o acúmulo de gordura corporal. 

O metabolismo muda com a idade e com a menopausa, mais ainda, com a queda do estrógeno há uma redução de mais ou menos 30% no metabolismo! Há um maior depósito de gordura abdominal. Portanto atividade física é parte do tratamento. Procurar um nutricionista para adequar suas necessidades nutricionais também! Uma alimentação rica em frutas, verduras e legumes; e ao mesmo tempo pobre em gorduras ruins e alimentos processados é o primeiro passo para amenizar os males dessa fase tão difícil para nós mulheres. 

Fonte: Naves, Andrea. Nutrição Clínica Funcional: Modulação Hormonal, 2010.

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